Canal de Distribuição, Edição 22

Colheita promissora

|| Paula Zaidan

Fornecedores de soluções, de maquinários e equipamentos com sistemas embarcados e consultorias, além de incontáveis startups competem para atender ao agropecuarista que, na ponta, quer reduzir custos e aumentar a produtividade. Porém, problemas de conectividade dificultam avanços.

Construir, gerenciar, manter e expandir uma fazenda nunca foi fácil, nem no SimFarm, jogo desenvolvido pela Maxis e lançado em 1993. Ele impõe inúmeros desafios como oscilações climáticas e de mercado, pragas, problemas com a criação; compra de máquinas e a comercialização e escoamento de seus produtos, além da necessidade – ou desejo – de expansão. Saindo das simulações, executar todas essas tarefas na vida real requer sistemas preditivos, análises de dados, automação, drones e Internet das Coisas – IoT.
Além de inovações tecnológicas, as revendas, integradores e os services providers capacitados para atender a este segmento ajudam na tomada de decisões, que resultarão em lucratividade e manutenção dos negócios.
Hoje, muita inovação ampara o agronegócio, que deve ver o Produto Interno Bruto – PIB crescer 2% em 2019, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA. Longe de estar relacionado somente ao campo, o setor tem em sua cadeia, além da própria produção, a industrialização de produtos, o desenvolvimento de maquinários, e a adoção de soluções tecnológicas para automatizar, agilizar e dinamizar atividades e processos inerentes a ele.
Uma das grandes apostas do atual governo, essa área ainda enfrenta dois grandes gargalos: logística e conectividade para otimizar os processos do campo e integrar o grande volume de dados. É preciso superar essas barreiras para a agricultura chegar à revolução digital.
Em um universo que reúne fabricantes, canal de distribuição, um sem-número de startups e, paralelamente, a manufatura de máquinas e equipamentos com tecnologias embarcadas, a indústria de TI oferece um leque de oportunidades. Na visão de Kleber Alencar, diretor executivo e líder de Agronegócio da Accenture, o mercado de oferta de soluções de TIC para essa indústria ainda não está consolidado. Naturalmente, as grandes empresas farão as aquisições e haverá um movimento de fusões. Para ele, a melhoria da conectividade também é uma questão de tempo.
As máquinas e equipamentos atuais, com sofisticadas tecnologias embarcadas impressionam muito, porém, os sistemas são fechados. “Por isso, a manutenção é uma das grandes preocupações em relação a colheitadeiras, caminhões e carros robotizados ou com algum tipo de automação. Ao mesmo tempo, as empresas de insumos e de sementes competem com o mercado de tecnologia porque provêm serviços no campo, assim como o fabricante das máquinas”, comenta Alencar.
Mesmo assim, a indústria de equipamentos robotizados tem um grande potencial de crescimento. De acordo com a sétima Pesquisa de Hábitos do Produtor Rural, da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio – Abmra, feita em 2017, dos 2.835 produtores rurais entrevistados em 15 estados, apenas 33% contam com elementos de agricultura de precisão. Os dados mostram que existe uma grande demanda por tecnologias capazes de auxiliar o monitoramento do trabalho no campo e o serviço pós-venda, que serve de apoio remoto aos clientes.
“Hoje já existem sensores de solo para análise de dados, irrigação inteligente, imagem de satélite… Como podemos usar essas informações para atender a essa nova demanda? IoT é uma nova onda que funcionará como infovia para trabalhar com dados heterogêneos de diversos dispositivos e dá margem para outras tecnologias”, explica Silvia Massruhá, chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária. A empresa tem se posicionado como grande facilitadora da agricultura digital e, assim, funciona como aceleradora para melhorar a produtividade.
A tendência é que a geração de dados aumente exponencialmente e, nesse contexto, entra em cena a inteligência artificial – IA com machine learning, mineração de dados estruturados e não estruturados.
Para o Bndes, o benefício esperado para o País com a tecnologia de Internet das Coisas – IoT pode chegar a R$ 200 bilhões em 2025, em quatro verticais: campo, cidade, indústria e saúde. No ano passado, a Frost & Sullivan estimou que em 2021 alcançaria uma receita de US$ 3,39 bilhões no segmento.

Melhoria da conectividade também é uma questão de tempo no agronegócio

Alencar, da Accenture

As colheitas para o canal

Revendas e integradores especializados nessa atividade econômica são fundamentais para a oferta de consultoria e para a venda de soluções sob medida. O canal, como é o caso da Accenture, tem uma visão mais genérica e ampla, já que não há tanta clareza de como esse arcabouço tecnológico vai evoluir. Então, a tática é tender para um nível macro. “Antigamente o canal seguia a linha de vender de tudo, mas hoje está se preparando para a oferta de plataformas que possam se integrar com outras tecnologias e que estejam ao redor disso. Principalmente as empresas maiores”, observa Alencar.
Blockchain figura como uma tecnologia de vanguarda. Há recursos para sua adoção, assim como de criptografia e sequenciamento do blcockchain. Porém, não há expectativa de que seja a grande vedete do mercado neste ano.
“Mas, como existem as fintechs e muitas possibilidades de uso de blockchain, por exemplo, no GPS e na colheitadeira, somente quando uma grande empresa disser que adotou a tecnologia, aí pode ser que os demais elos da cadeia também passem a usar”, comenta Marco Antônio Salvo, consultor Nacional da Sankhya.
Um ponto que vale destacar é que o setor carrega um legado de gerações despreparadas para a Indústria 4.0 e, agora, o agropecuarista começa a contratar profissionais do mercado ou, no caso de gestão estritamente familiar, os mais novos assumem o comando dos negócios.

Algumas tecnologias ainda não podem ser usadas, porque a banda é limitante

Panachão, da Dimension Data

Agro 4.0

Integrar os dados de forma a criar conectividade. Esse é o desafio e ao mesmo tempo a oportunidade para o mercado de TIC, num setor que já tem tudo para viver a revolução digital e adotar as facilidades da Indústria 4.0. Porém, está na versão 3.0, dada à complexidade na cadeia produtiva e ainda por ter muito a evoluir na questão das comunicações. No entanto, existem diversos consórcios, laboratórios e parcerias que têm projetos-piloto em andamento ou iniciativas já implementadas.
É o caso da IBM que deve anunciar em breve, iniciativa para melhorar questões no ambiente do agronegócio, como a conectividade. “Nesse projeto basicamente teremos uma rede de comunicação instalada numa fazenda, usando radiofrequência – Nesh, que permite ampliar o alcance onde não existe internet. Ela será também usada em lugares ermos, para conectar comunidades e os dispositivos no campo”, comenta Percival Lucena, pesquisador do Laboratório da IBM Research Brasil.
Ele também explica que a companhia utiliza Inteligência Artificial para dar sentido aos dados extraídos de toda a cadeia do agronegócio, até chegar ao consumidor final. Hoje, já é possível detectar a contaminação de um alimento antes que ele chegue ao último elo da cadeia.
O Programa do Ministério da Ciência e Tecnologia e Comunicações – MCTIC, com o Bndes para Internet das Coisas, fez um mapeamento para a área rural, para saber o grau de maturidade do mercado, onde vale realmente investir, o que cabe aos setores público e privado. Por sua vez, a Embrapa está fazendo um piloto em grãos e leite, com produtores que usam tecnologias para ver o que é adequado e viável para o pequeno, médio e grande produtor. Esse projeto foi aprovado em janeiro de 2019 e está na fase de pré-seleção. “Nosso consórcio envolve associações, produtores de várias regiões do País, de todos os biomas e em diferentes cenários”, comenta Silvia. É um projeto de dois anos e deve entrar em produção a partir do segundo semestre de 2019.
A executiva da Embrapa conta que também vem trabalhando com dados e serviços disponibilizados de forma pública, via API ou microsserviço, criando comunidades de desenvolvedores numa plataforma colaborativa, onde as empresas poderão prestar serviços com base nesse modelo.
Hoje, a IBM encabeça vários projetos. Como o que tem em conjunto com a BRF e a rede varejista Carrefour para reforçar a rastreabilidade de alimentos. Por meio do Food Tracking, que utiliza a tecnologia blockchain, o intuito é informar ao consumidor a procedência dos alimentos, considerando todas as etapas: produtiva, comercial e logística. Na Belagrícola, que comercializa de grãos a insumos, foi adotado rastreamento com o uso de dispositivos de IoT, que fornece dados de medição e transação, registrados na base de dados inviolável (blockchain), para garantir a procedência e a qualidade nos trâmites de soja e de milho.
A Urbano Agroindustrial, empresa de alimentos, implementou um sistema para monitoramento e controle do volume dos grãos armazenados nos silos. Desenvolvido pela Senior, desenvolvedora de software e parceira da IBM, o projeto é pioneiro no Brasil e envolveu a automatização dos processos por meio do uso de IoT e computação cognitiva. E, ainda, o AgroPad, tecnologia móvel de análise de solo e da qualidade da água das lavouras. O sistema funciona por meio de um cartão de papel, associado a um aplicativo para dispositivos móveis, como celulares e tablets. A amostra é colocada em um lado do cartão, que contém um chip para fazer a avaliação. Os dados são armazenados sob uma figura com círculos, que representam cada componente analisado.

Rede Nesh será usada em lugares ermos para conectar comunidades no campo

Lucena, da IBM Research

Evolução das máquinas

A automação dos equipamentos é uma realidade, mas ainda há muito para crescer, portanto, muitas chances para o canal. Mas, como sinaliza a Accenture, as soluções são embarcadas e os sistemas proprietários, e podem ser uma barreira para adquirir máquinas robotizadas, uma vez que o risco de manutenção é alto. No entanto, algumas empresas oferecem serviços remotos para gerenciá-las.
É o caso da Agco, fabricante e distribuidora mundial de equipamentos agrícolas, que oferece o Auto-Guide 3000, que guia automaticamente o trajeto da máquina no campo e atua com níveis de precisão submétrico, decimétrico ou centimétrico. Já o sistema de telemetria AgCommand acompanha, em tempo real, diversos indicadores técnicos remotamente. E a terceira ferramenta é o FieldStar II. Embarcado nas colheitadeiras, é um sistema para mapeamento mecanizado da produtividade, onde os dados de colheita são armazenados em um dispositivo móvel (dendrite).

Quando uma grande empresa adotar blockchain, os demais elos da cadeia passarão a usar

Salvo, da Sankhya

Adubo para o setor

Embora nos últimos anos a tecnologia de telecomunicações tenha chegado ao campo com banda larga, ainda é escassa diante da necessidade que o agronegócio tem para avançar na adoção de inovações, como soluções de IoT, Inteligência Artificial e bots. Independentemente do tão esperado 5G, o alcance do 4G ainda é baixo. Nesse sentido, as empresas de satélite e redes de baixa energia dominam em regiões onde não há sinal.
Vale do Piracicaba ou Agtech Valley são alguns dos nomes pelos quais a cidade paulista de Piracicaba é conhecida. Localizada a 160 quilômetros de São Paulo, vem sendo conhecida porque é um polo de desenvolvimento de tecnologias voltadas ao agronegócio. A campanha que deu origem a esse movimento foi idealizada por Sergio Marcus Barbosa, engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – Esalq-USP, e gerente-executivo da incubadora tecnológica da Universidade, a EsalqTec, instalada na cidade.
Segundo Barbosa, a EsalqTec – junto com a Ericsson, a Vivo e a Raízen – está em um programa de conectividade no campo chamado Agro IoT Lab. A Ericsson trabalha com hardwares; a Vivo, com sistema de telefonia e a Raízen traz um caso claro de necessidade de conectividade para operação em campo.
Para Augusto Panachão, diretor de soluções e tecnologia da Dimension Data, canal da Cisco, redes de baixa energia, como Lora, SIG FOX, são fundamentais para a agricultura de precisão. O que é comum no campo são as redes sem fio com taxas de transmissão mais baixas. “Algumas tecnologias ainda não podem ser usadas de qualquer lugar, porque a banda é um fator limitante, mas vejo um grande esforço e investimento por parte das operadoras de telecomunicações”, comenta.
Rafael Guimarães, presidente da Hughes do Brasil, afirma que a conectividade de fato é um grande gargalo no campo. Atuando no modelo de vendas indiretas, com as revendas em todo o Brasil especializadas em TV por satélite ou serviço e equipamentos de segurança, em 2022 participará da rede de satélites One Web, outra tecnologia de comunicação via satélite por banda larga.
“Hoje, esses equipamentos ficam parados no céu. O Jupter, satélite que chegará em 2021 também é geoestacionário, mas terá maior capacidade de transmissão, dobrando a banda que temos no Brasil. Na One Web esses satélites ficam rodando, e soma os três geoestacionários e uma constelação que cobre o globo todo”, adianta Guimarães.
Recentemente, a TIM anunciou a parceria com o Adecoagro, produtora de alimentos e energia renovável, para levar IoT ao campo, por meio do projeto 4G TIM no Campo, implementado no Vale do Ivinherma, Mato Grosso do Sul. A comunicação permitirá atendimento de voz, dados móveis e IoT com a instalação de equipamentos 4G (eNodeB) na faixa de 700 MHz nas fazendas e usinas da companhia.
Pioneira no cultivo de banana no norte do Espírito Santo, com uma produção de 17 mil toneladas por ano, a Doce Bela, que hoje atende a toda a região Sudeste, com mais de 300 funcionários, iniciou em 2014, um plano de ação para dobrar o faturamento em cinco anos. Como parte dessa ousada estratégia, a empresa investiu na modernização do negócio, adotando o sistema da Sankhya, desenvolvedora de sistemas de gestão empresarial.
“Com o passar do tempo, os sistemas que utilizávamos para gerir o negócio foram ficando defasados a ponto de não mais atender às nossas demandas”, lembra Fabrício Barreto, sócio-diretor da Doce Bela. Sete softwares diferentes faziam a gestão dos processos internos. “Na área fiscal registramos um grande ganho de tempo no preenchimento dos pedidos, pois o sistema, integrado com o estoque e o cadastro, já completa automaticamente o nome do cliente e verifica o preço e a disponibilidade do produto em estoque”. Ou seja, em dois ou três cliques a nota fiscal é gerada com dados precisos e seguros, sem intervenção manual, já que tudo é preenchido de forma automatizada pela solução.
O objetivo de Barreto é trabalhar todos os processos da empresa dentro da plataforma Sankhya, desde a parte operacional de retaguarda, até os processos específicos da operação, incluindo a geração de indicadores de controle de desempenho e qualidade.

A conectividade de fato é um grande gargalo no campo

Guimarães, da Hughes

Agtech

De acordo com recente mapeamento da Associação Brasileira de Startups, ABStartups, o País conta hoje com 182 agtechs ativas. Entre elas, está a Agrosmart, plataforma de agricultura digital líder na América Latina, que tem como principal objetivo ajudar produtores rurais a tomar as melhores decisões e serem mais resilientes às mudanças climáticas. O uso do sistema permite economizar até 60% de água, 30% de energia e aumentar a produtividade em até 15%, tornando o cultivo mais inteligente.
Como exemplo de companhia brasileira destinada a investir em inovação no meio agro, a SP Ventures que busca participação acionária em empresas inovadoras e com alto potencial de crescimento. Além de investimento financeiro, a equipe da SP Ventures trabalha para transformar pequenos negócios em grandes companhias de alto impacto.
Já a Fundepag, com seus 40 anos de história, incentiva pesquisas em todos os setores que compõe o meio agro: horticultura, pecuária, pesca. Ela aproxima pesquisadores, institutos, hubs de inovação e de novos negócios em expansão e ecossistema de empreendedorismo em prol do crescimento do setor. Com atuação nacional, a empresa tem hoje parceria com mais de 48 organizações de ciência e tecnologia e já realizou mais de mil eventos de transferência de conhecimento, seis mil projetos, além de contar com mais de 2,5 mil financiadores públicos e privados.
Com esses pilares unidos, o setor agropecuário nacional garante mais longevidade e eficiência para cumprir os desafios que virão. O segmento mais rico do País tem um horizonte tech e próspero à frente.