Edição 22, Tecnologia

Cloud computing sob raio X

|| Marcelo Gimenes Vieira
Analistas e executivos falam sobre o futuro da nuvem, considerando tendências como multicloud, Machine Learning e microsserviços. E reiteram: as oportunidades para canais de consultoria, migração
e implementação vão explodir

Eis que a computação em nuvem está madura e avança, inclusive no mercado brasileiro. Esta é a conclusão de analistas e executivos do setor de tecnologia ouvidos por Infor Channel, que foram unânimes: espaço para crescer existe, as oportunidades para os canais de venda e distribuição são inúmeras, o caminho para a inovação está aberto e a tecnologia é sólida o suficiente para afastar qualquer temor – contanto que a jornada seja feita com planejamento.
Mundialmente as receitas com nuvem pública crescem de forma exponencial e devem chegar a US$ 175,8 bilhões em 2019, segundo projeções do Gartner publicadas em setembro do ano passado; número que deve saltar para US$ 278,3 bilhões em 2021. No Brasil, por sua vez, o mercado de software e plataformas como serviço na nuvem – SaaS e PaaS, cresceu 30,2% entre 2016 e 2017, alcançando US$ 815 milhões, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Software – Abes.
“O universo de cloud é muito grande: 19% de todos os workloads estão em nuvem e demorou um tempo para chegarmos a este estágio”, argumenta Henrique Cecci, diretor sênior de pesquisas do Gartner. As estimativas são de que a cloud continuará crescendo a uma taxa importante no Brasil, e que deverá chegar a algo em torno de 28% do envio da carga de trabalho a ser processada no ambiente de nuvem (workload), em 2022. “Chamamos este modelo de cloud shift.”
Esse crescimento, no entanto, jamais abarcará toda a demanda por processamento no mundo.
Se é possível dizer que muitas aplicações e plataformas rodam bem na nuvem, outras trazem mais valor às organizações quando on premisses, ou seja, com processamento local. Cada organização deve, conforme suas características, optar pelo modelo que melhor atenda às necessidades do negócio.
O modelo de software como serviço – SaaS é o maior do mercado de nuvem pública, com movimentação de US$ 85,1 bilhões em 2019 projetados pelo Gartner. Serviços nesta modalidade – como o Office 365, da Microsoft, ou o G Suite, do Google, os mais lembrados – são padronizados e não exigem grande esforço de implementação e migração, reduzindo as barreiras de entrada.
Já a infraestrutura como serviço – IaaS é o segmento que mais cresce: 27,6% previstos para este ano, chegando a US$ 39,5 bilhões frente aos US$ 31 bilhões de 2018. Esta modalidade prenuncia o que o Gartner chama de segunda onda da nuvem, ou seja, a adoção de aplicações padronizadas torna-se comum, e a contratação de plataformas e infraestruturas dispara para a migração de aplicações críticas de negócio.

No mundo, 90% dos softwares e aplicações estão em infraestruturas próprias

Andreotti, do Google

Verticais

“Não é simples pegar sua aplicação e mover para cloud. Isso exige customização, adaptação e uma série de outros fatores”, explica Cecci. Ele diz que veremos IaaS e PaaS crescer cada vez mais combinados e, eventualmente, o SaaS vai acabar estabilizando. Em longo prazo a tendência é terem uma proporção de mercado mais próxima.”
Com base em estudos do Gartner, a estimativa é que, até 2022, 90% das organizações com aplicações rodando em nuvem pública usarão uma combinação de provedores de infraestrutura (IaaS) e de plataformas (PaaS). É claro que a velocidade da jornada continua dependente do nível de maturidade da empresa, do setor em que atua (e as regras de compliance impostas), regulação, infraestrutura legada, entre outros pontos. O setor financeiro talvez represente bem esses dilemas, apesar da maioria das fintechs já ter nascido na nuvem.
Governo também enfrenta dificuldades na jornada para a nuvem. O modo de contratação e requisitos técnicos nos editais para projetos do setor não estão adaptados à oferta de nuvem brasileira, dizem os executivos.
É necessário que o setor reveja a maneira como contrata. “Deveriam ter estratégias multivendor, mas preferem concentrar, e isso não é compatível com o modelo de cloud”, pondera Nelson Mendonça, diretor de serviços gerenciados da Equinix. Há ainda muitos sistemas legados em órgãos de governo que não se adaptam à nuvem, o que dificulta a migração. Para o executivo, também faltam fornecedores de serviço capazes de facilitar a vida de órgãos públicos na construção de projetos.
Mas nem sempre a adoção tardia é uma desvantagem, defende Hermann Pais, gerente de desenvolvimento de marketing da Amazon Web Services – AWS. “O Brasil não é um early adopter de tecnologias e entendo isso como uma vantagem necessária”, salienta. “Dá para escolher o cavalo que está ganhando a corrida”.

As empresas usam em média seis nuvens diferentes e não necessariamente para os mesmos serviços. Normalmente um CRM, um storage e um serviço de e-mail, entre outros, o que já configura uma abordagem multinuvem

Inovação

Apesar do avanço da nuvem, a maioria dos softwares e aplicações corporativas do mundo ainda residem em infraestruturas próprias ou, cerca de 90%, diz Fábio Andeotti, head da plataforma Google Cloud no Brasil. “Mas estamos notando uma aceleração muito grande das empresas. No ano passado mais que triplicamos o número de clientes no País, principalmente para aplicações de infraestrutura como serviço”. A empresa aposta em três pilares tecnológicos para atrair clientes (infraestrutura; dados e analytics e Machine Learning), que, de certa forma, representam a evolução de uma companhia na nuvem. A infraestrutura confere agilidade e capacidade de inovação; os dados aprimoram produtos e aumentam engajamento, e Machine Learning automatiza e inova.
A IBM, fabricante que tem apostado na abordagem de nuvem híbrida, divide sua estratégia em duas frentes: nuvem híbrida e multicloud, e inteligência artificial (ou cognitiva). Na primeira, o foco é fazer a integração de ambientes públicos e data centers proprietários o mais transparente possível por meio de microsserviços e uso de contêineres, uma espécie de virtualização, que permite criar múltiplas instâncias isoladas de um determinado sistema operacional. Isso inclui abordagem de múltiplas nuvens, ou multicloud.

Não dá para ser amador, é preciso ter especialização naquilo que se pretende fazer

Cecci, do Gartner

“As nuvens não são todas iguais”, pondera Marcos Paraíso, executivo de Watson e plataformas de nuvem da IBM Brasil. “Os clientes vão consumir várias nuvens por definição. Isto traz a possibilidade de obter melhores serviços onde estiverem, com redução de riscos sistêmicos e financeiros, porque há a possiblidade de comparar preços”.
Segundo um estudo da própria IBM, as empresas usam em média seis nuvens diferentes e não necessariamente para os mesmos serviços. Normalmente um CRM, um storage e um serviço de e-mail, entre outros, o que já configura uma abordagem multinuvem. O caminho futuro, para a companhia, é ser capaz de mover workloads entre múltiplos vendors.
Isso ainda requer, no entanto, “algumas evoluções técnicas, mas este é o caminho que todo mundo está seguindo. A nuvem não é um fim, é um meio de rodar aplicações de forma mais rápida e ágil”, argumenta Paraíso. “Se você olhar para a inteligência artificial verá que isso está longe de acontecer, mas serviços mais básicos são muito parecidos. Claro que há diferenças de preço, requisitos etc., mas se o cliente mudar de A para B a diferença é pequena, sendo muito sincero”.
Para o executivo da IBM, o problema principal e que deve ser endereçado é viabilizar o negócio do cliente, e não que fornecedor de nuvem na está na base.

É necessária uma análise técnica adequada para não acabar gastando mais

Frederico, da Tivit

Player global importante para o mercado de nuvem, a AWS discorda que este seja o melhor caminho. “Entendemos que não dá para colocar todos os ovos em uma cesta só, mas na nossa opinião multicloud exige cuidado dos clientes”, explica Pais.
Para ele, a estratégia de um único fornecedor é mais clara e dispensa o aprendizado de diversas habilidades de implementação, aplicações e arquiteturas, facilitando a vida das equipes de TI dos clientes.
A AWS, braço de nuvem da gigante norte-americana de varejo Amazon, tem estrategicamente apostado no fornecimento de infraestrutura e plataforma como serviços de maneira simultânea em múltiplos mercados. São 20 regiões de clusters de datacenters espalhadas no mundo, inclusive uma no Brasil, mercado considerado chave. Para a empresa, a nuvem se tornou uma espécie de “língua franca”, que permite acesso mesmo em mercados pouco desenvolvidos.
Entre as novas tecnologias em que faz apostas estão a criação de robôs, IoT, Big Data e outras baseadas em nuvem. A empresa acredita que a vasta maioria da computação do futuro será feita na nuvem, ao contrário de players que apostam em abordagens híbridas, com processamento crítico feito on premisse ou nuvem privada.
“Em até uns quinze anos pouquíssimas empresas terão seus próprios data centers. Aquelas que ainda tiverem terão footprints muito menores. Tudo isso está migrando para a nuvem”, diz Pais.

Ventos favoráveis

Ventos favoráveis

No atual estágio de desenvolvimento do mercado brasileiro, em que grande parte das empresas utiliza SaaS e começa a estudar o uso de plataformas e infraestrutura na nuvem, os serviços de consultoria predominam quando se trata de oportunidades. Isso significa não só serviços de avaliações, design de arquitetura ou aplicações, mas também e, sobretudo, parceria.
Discernimento, especialização e conhecimento são fundamentais. “Pode ser mais importante não levar para a nuvem, por exemplo, aplicações críticas – que talvez não sejam possíveis –, ou fazer migrações que não trarão benefícios”, pondera André Frederico, diretor executivo e head de Soluções de Cloud da Tivit. “É necessária uma análise técnica adequada. Clientes que tentam fazer isso sozinhos podem chegar ao final do processo gastando mais”.
Nos próximos anos a modernização de aplicações customizadas de negócio e a migração para a nuvem terão uma demanda muito grande, acreditam os executivos ouvidos nesta reportagem. Serviços gerenciados e de suporte aparecem para clientes que já estão na chamada terceira onda, ou seja, cujos produtos já nascem na nuvem.
É aí que entra em cena a arquitetura baseada em microsserviços, ou contêineres, que “dividem” a aplicação em camadas e dão mais agilidade para a TI, inclusive em termos de automação, abrindo de vez as portas para múltiplas nuvens.

Infraestrutura como serviço – IaaS é o segmento que mais cresce: 27,6% previstos para este ano, chegando a US$ 39,5 bilhões

Para Mendonça, da Equinix, no entanto, a maioria das empresas não está preparada e isso também abre uma janela de negócios. “As companhias, em muitos casos, não estão prontas para adotar plataformas multicloud. Se o canal se posiciona como facilitador terá muitas oportunidades”, explica. Entre elas, gerenciar a infraestrutura com diferentes vendors e ajudar o cliente
a escolher o melhor para cada necessidade.
Outras demandas surgem em serviços de consultoria e segurança, além de monitoramento de performance e integração. São ações difíceis de executar e que exigem pessoal especializado – o que muitos departamentos de TI simplesmente não possuem.
As empresas precisam de apoio para enfrentar a concorrência. “Quanto mais parece que a tecnologia está se tornando acessível, mais o gestor de TI é pressionado a mudar. E rápido. É aí que entram os parceiros”, diz Mendonça.
A participação de canais na jornada das organizações para a nuvem, seja em consultoria ou em integração, é também um acelerador deste caminho. Segundo o Google, clientes que contam com um parceiro de canal envolvido em projetos movimentam 50% mais aplicações para a nuvem.

Estratégia de um único fornecedor é mais clara e facilita a vida das equipes de TI

Pais, da AWS

“Isso é bom para o cliente, porque quanto mais cedo usar a nuvem, mais cedo terá benefícios de custo e de agilidade”, diz Andreotti, do Google. “Estamos expandindo a nossa rede de parceiros, que quintuplicou no ano passado. Queremos efetivamente auxiliar os clientes no uso de nossos serviços”.
Cecci, do Gartner, lembra que, no entanto, este é um mercado heterogêneo e que as oportunidades podem variar dependendo da região do Brasil e do tamanho do cliente. “Não dá para entrar como amador, é preciso ter especialização naquilo que se pretende fazer”, sentencia o analista de mercado. E conclui: se tivesse que escolher seriam implementação e migração. Só aí estão 80% das oportunidades.

Falta fornecedor que facilite a construção de vvvvv em órgãos públicos

Mendonça, da Equinix