Edição 24, Gestão

Pensar diferente

Ainda bastante atrativa para integradores e revendas de TI, Governança Corporativa pode ser o antídoto para empresas brasileiras, especialmente as pequenas e médias, consideradas imaturas em termos de adoção desta prática – mortalidade de startups chega a 75%

Por Marcelo Gimenes Vieira

Em poucas e breves palavras: governança corporativa é o sistema pelo qual organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas; considera pontos como relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e de controle, entre outros. Esta é a definição resumida disponibilizada no site do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, o IBGC, autoridade máxima sobre o assunto no País.

Estes princípios podem ser convertidos em um conjunto de boas práticas que alinhem interesses da organização com a preservação de valor ao longo do tempo. Desta forma facilita, entre outras ações, o acesso a financiamento, o aumento da qualidade da gestão e o cumprimento da função social. Transparência, prestação de contas, equidade e responsabilidade corporativa estão entre os itens. São eles que definem – ou deveriam definir – as ações de líderes de todas as atividades que formam a sociedade, não apenas empresariais.

O mundo da inovação, para grandes e pequenas, precisa de gestão moderna e antenada

Tadeu, da FDC

Porém, o tema ainda gera dúvidas. Esses princípios e boas práticas são exclusividades das grandes empresas, que podem investir em pessoal especializado nesse campo? Startups e revendas de tecnologia da informação e telecomunicações devem pensar em governança apenas quando crescerem? A resposta é duas vezes não. 

A governança está implícita desde o momento zero de qualquer organização. “Não é um evento isolado. É um processo dinâmico, paulatino, progressivo. É importante que a empresa entenda em que estágio de desenvolvimento se encontra para identificar as práticas adequadas para cada ciclo”, explica Marcelo Hoffmann, conselheiro de administração do IBGC.

O professor Hugo Tadeu, do Núcleo de Inovação da Fundação Dom Cabral (FDC), concorda. E salienta que, ao contrário do pensamento dominante no ambiente de startups, inovação combina com governança e conselhos de administração. “Quando olhamos mundo afora, nos rankings que colocam empresas de tecnologia como as mais inovadoras, vemos organizações de capital aberto com alguém na função de responsável nos conselhos pelos riscos corporativos”, explica. “As mais inovadoras do mundo, todas elas, têm governança.”

Imaturidade nacional

Governança ainda é um assunto que gera certa apreensão entre as empresas brasileiras que estão no início de suas atividades e que buscam explorar atividades inovadoras, o que não acontece com seus pares em países como Estados Unidos ou China, diz Tadeu. Isso se dá principalmente porque a captação de investimento por meio de fundos, sejam investidores anjos ou venture capitals, exige pentes finos e prestação de contas que não seriam possíveis sem governança. 

Startups não têm conselho, mas precisam prestar contas para alguém. O professor da Fundação Dom Cabral ressalta que o mundo da inovação, tanto para a grande quanto para a pequena empresa, precisa de gestão moderna e antenada, e que há um custo de capital a ser respeitado. “Criatividade não é anarquia, mas geração de ideias”, defende.

As boas práticas de governança corporativa diminuem o risco de mortalidade de empresas

Hoffmann, do IBGC

A governança corporativa protege as organizações contra riscos econômicos, necessários para promover inovação, diz o professor, que integra um grupo da Organização Internacional para Padronização, (International Organization for Standardization – ISO), voltado para formular uma norma de práticas de inovação e governança. O objetivo é proteger investimentos, respeitando marcos regulatórios e riscos operacionais, fiscais e financeiros. Afinal, não se pode esquecer que a inovação e a tecnologia trazem consigo riscos como ataques cibernéticos e vazamentos de informações sensíveis, que precisam ser previstos.

“Certamente as boas práticas de governança corporativa diminuem o risco de mortalidade de empresas”, explica Hoffman. “Quando avançamos para um estágio mais maduro, percebermos que há benefícios de criação de valor em seu mais amplo sentido, ou seja, geração de liquidez para sócios e acionistas. Sem dúvida quem adota governança terá mais facilidade de acesso a capital.”

Atento à situação, o IBGC lançou em março um caderno chamado Governança Corporativa para startups & scale-ups, que aborda as particularidades de cada fase de crescimento de um negócio – ideação, validação, tração e escala – e busca auxiliar os empreendedores brasileiros (veja quadro). Afinal, o índice de mortandade de novas empresas no Brasil é de 75%, segundo a FDC, que poderia ser muito menor com mais planejamento e governança.

Ainda assim, o grau de maturidade das pequenas e médias empresas brasileiras é baixo. São companhias mais preocupadas em vender uma tecnologia ou produto novo o mais rápido possível. 

“Sem dúvida estamos em estágio inicial, mas existe uma mudança bastante intensa e veloz”, diz Hoffman. Ao olhar o mercado de tecnologia de modo mais amplo, o advento da cloud computing democratizou o acesso a ferramentas de grande impacto. “Eu vejo uma primeira camada de empresas early adopters propensas a adotar ferramentas que ajudem na governança”, avalia.

 Nas grandes empresas, ao contrário, o nível de maturidade no Brasil é alto diante da necessidade de respeitar regulações governamentais, órgãos de proteção concorrencial e conselhos profissionais, entre outros. Para este universo, o desafio é treinar e capacitar conselheiros para que entendam o mundo da transformação digital, e que riscos correm para investir em inovação. 

Governança permite crescimento interno
e externo, além
de reter talentos

Magalhães, da StoneCapital

Na prática

A StoneCapital Investimentos, consultoria especializada em operações de compra e venda de empresas, além de assessorar companhias na captação de recursos via Private Equity, também vende consultoria para governança. Ela auxilia nos processos necessários para a criação de um conselho de administração, por exemplo.

Como no mundo corporativo casa de ferreiro não pode ter
espetos de pau, a governança foi de grande valia para o desenvolvimento da própria consultoria, que aplica internamente os fundamentos de governança a exemplo de transparência, prestação de contas e responsabilidade corporativa, como forma de gerar incentivo e harmonia entre os sócios e a equipe.

“A StoneCapital está fazendo nove anos. No início tínhamos muito mais um viés empreendedor, de inspiração”. Há cerca de seis anos passou a adotar e aplicar as boas práticas de governança. “Mas é um trabalho contínuo de amadurecer pessoas e processos que resulta em evolução; não conseguimos resultados da noite para o dia”, explica Fernando Magalhães, sócio da consultoria. 

Para o executivo, a governança permite crescimento interno e externo, além de ser uma forma de reter talentos. Afinal, as políticas costumam ser discutidas com a equipe, buscando fazer com que todos adotem práticas e costumes por meio da participação. Há ainda um processo interno para formação de sucessores. “É difícil imaginar o longo prazo sem a governança ao lado”, pondera. 

Magalhães concorda que a maioria das empresas brasileiras nasce do empreendedorismo, da ideia de um negócio no qual o empresário está mais preocupado em realizar do que criar processos e regras. Mas há um momento em que percebem que é preciso organizar a casa, transcendendo da visão do empreendedor para a do administrador.
É uma mudança de pensamento crucial antes de receber aportes.

“A decisão de investir em um negócio é muito subjetiva. Uma empresa é um organismo vivo, muito sensível e complexa. Se a empresa tem boas práticas de governança isso facilita o processo e torna o ativo mais atrativo para o investidor”, explica o consultor. “A consequência para o aporte é uma boa governança.”

Oportunidades de negócio

Muito embora a tecnologia não seja pré-requisito para a governança corporativa, que tem relação muito maior com processos, boas práticas e cultura corporativa, é inegável que há soluções que facilitam a vida dos gestores – e geram muitas oportunidades de negócio.

Ferramentas que simplifiquem ou habilitem recursos de detecção de fraudes, auditoria, gestão de pessoas, contábil, financeira, jurídica etc., permitem o mapeamento de processos estratégicos e da própria gestão direta da governança. Apoiam, por exemplo, a atividade dos conselhos de administração.

Nesse contexto, o mercado de soluções de gestão de documentos corporativos em ambientes regulados, armazenamento seguro na nuvem, os tradicionais ERPs e CRMs, além de Analytics, Business Intelligence e mesmo Inteligência Artificial é promissor. 

Um caso interessante é o da Atlas Governance, fornecedora de um sistema que processa todas as atividades de um conselho antes, durante a após as reuniões periódicas. Elas exigem preparação de materiais para os membros do grupo, geração de atas, acompanhamento da execução de decisões etc. Tudo isso sem abdicar da segurança e da confidencialidade dos documentos.

A solução da Atlas automatiza o trabalho de agendamento, a preparação de pautas e a disponibilização de materiais de suporte, além do envio por e-mail das convocações e a junção de documentos em único ‘livro’ de leitura. Em suma, facilita para o conselheiro o acesso aos temas a serem discutidos, e para o gestor auxilia no trabalho de organizar tudo.

“A Atlas surgiu em 2015, quando eu estava simultaneamente no conselho de sete empresas. Eu precisava ter uma metodologia para as diferentes atividades, de forma que conseguisse orquestrá-las”, conta Eduardo Carone, fundador e CEO da Atlas Governance. “Mesmo empresas mais organizadas não conseguem tratar tudo que é discutido em reunião e, pior ainda, é comum não haver follow-up e não saber se o que foi decidido foi implementado.”

Hoje o mercado de software de gestão para governança é dominado por duas empresas norte-americanas, a Diligent e a BoardVantage, da Nasdaq. A Atlas mantém o foco no mercado brasileiro com venda direta do software no modelo como serviço ou, do inglês, SaaS, mas sem descartar a venda indireta. “Já pensamos em atuar via canal; apareceram interessados, mas ainda não resolvemos a equação”, conta Carone. “Só falta entender qual o perfil do parceiro de negócios correto, porque nosso público-alvo é de nicho. Falar com um conselheiro nem sempre é fácil.” 

No entanto ele conta que a aquisição das soluções da Atlas pode ocorrer também por meio dos gestores de governança das empresas. Estes são os primeiros que “ficam apaixonados” pela automação do seu processo de trabalho. De toda maneira, são os membros do conselho que dão a palavra final, o que pode levar algum tempo. O ciclo de venda pode ser de quatro a cinco meses, diz.

Hoje a companhia tem 40 clientes de grande e médio portes, incluindo shopping Iguatemi, Riachuelo, CVC e Cyrela. São empresas com processos de governança mais maduros. Recentemente recebeu um aporte de
R$ 1 milhão, o que deve facilitar a expansão da Atlas para outros países da América Latina, em prazo ainda não definido.

“O mercado é imaturo ainda, mas por necessidade vai precisar amadurecer”, pondera Carone. 

Governança Corporativa para startups & scale-sps 

Buscando apoiar startups e scale-ups, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC lançou em março de 2019 um guia de governança voltado a empreendedores. O objetivo é desmitificar a adoção de governança em pequenas empresas e reduzir a taxa de mortalidade desses negócios no Brasil, que gira em torno de 75%. 

A publicação está disponível no bit.xly/2URb4F9