O digital ganha mais espaço no setor Financeiro
Edição 36, Mercado

O digital ganha mais espaço no setor Financeiro

Prestadores de serviços de TIC, afiados nas soluções que levam à inovação, ganham espaço em um dos ecossistemas mais herméticos do mercado.

Por Solange Calvo

Altamente regulado, vencendo desafios constantes de compliance, o setor Financeiro manteve dentro de casa o desenvolvimento de soluções, gerenciamento de data centers, entre outras atividades para garantir a proteção de dados estratégicos. Até que o digital invadiu o mercado, acelerou a inovação e impôs mudanças nesse tradicional traçado.

Pressionados pela sociedade cada vez mais digital, atores do ecossistema Financeiro, em especial os bancos, vêm flexibilizando seus modelos de negócios, abrindo portas para parcerias com empresas fornecedoras de serviços de Tecnologia da Informação e Comunicação – TIC para minimizar custos, agilizar entregas de produtos inovadores e focar no negócio.

O Banco do Brasil está na fase de estudos para avaliar possíveis demandas e oportunidades de negócios com a parceria do integrador de solução. “Avaliamos perfis profissionais com conhecimentos em tecnologias inovadoras aliadas aos negócios do banco para escolher fornecedores”, diz Pedrita Reine, gerente de Soluções na Estratégia do Fornecimento de TI do Banco do Brasil.

Para Glória Guimarães, vice-presidente da Unidade de Negócios de Financial Services da Capgemini, os integradores de sistemas passaram a desempenhar papel de colaboração com o negócio. “Em alguns casos, dividem o risco e a receita de novas soluções desenvolvidas em parceria, com a colaboração entre as instituições financeiras e as fintechs na distribuição e vendas de produtos bancários”, relata. Nesse redesenho, ganha vantagens o parceiro que tem conhecimento sobre o mercado Financeiro, seus processos, desafios e necessidades.

Glória, da Capgemini: Os integradores de sistemas passaram a desempenhar papel de colaboração com o negócio.

Marco Stefanini, CEO global e fundador da Stefanini, também avalia que hoje o maior trunfo para o ingresso nesse setor é o conhecimento do negócio. “Além disso, ter pacotes de soluções digitais comprovadas e experiência são pontos importantes. Hoje, os bancos estão mais abertos a contratar soluções, porque é muito caro o custo de manutenção de um sistema. É maior do que o custo do desenvolvimento de sistemas”, acrescenta Stefanini.

Stefanini, da Stefanini: Produtos digitais têm sido bem aceitos, mas precisam estar apoiados em casos de sucesso.

Raul Rocha, vice-presidente da Qintess, empresa gerada da união do grupo Cimcorp e Resource, diz que, de fato, pesa mais o conhecimento especializado no negócio, no core business dos clientes. “Para comprovar isso, as empresas de TIC precisam ter cases que demonstrem sua capacidade de atendimento ao setor, além de simplesmente mostrarem conhecimento em uma ou outra tecnologia.” E alerta: “O modelo de entrega precisa incluir especialistas de negócios, pois a área financeira possui muitos produtos e linhas de serviços”. Os fornecedores de tecnologia precisam ter profissionais que conheçam essas ofertas, ou seja, que possuam especialização não apenas no setor Financeiro, mas também nos diferentes negócios que esse segmento oferece.

No Banco do Brasil, a especialização do parceiro é outro aspecto relevante e precisa ser comprovada. “Os prestadores de serviços têm de desenvolver suas habilidades e competências em tecnologias inovadoras, com a aplicação em produtos e serviços, para que o setor Financeiro tenha as melhores soluções e ferramentas”, orienta Pedrita. Desta forma, impulsionam o crescimento dos negócios digitais, o que resultará no aumento da rentabilidade e na redução de custos.

Soluções que ajudem as instituições financeiras a manter a conexão com os clientes são importantes nesse momento e, a demanda para um integrador contribui para que o setor fortaleça essa meta. “O digital já era uma realidade nesse mercado, mas teve de acelerar nesse novo cenário de isolamento social, para conter a Covid-19. O trabalho dos parceiros contribui para ajudar a sustentar o digital e a integrar as diversas atividades de diferentes cadeias produtivas”, avalia Paulo Marcelo, CEO da Solutis.

Marcelo, da Solutis: O futuro aponta para companhias ágeis com atuação remota, que despertam bastante interesse nesse mercado.

Mil e uma oportunidades
O que o mercado Financeiro está demandando? O banco BV conta com diversos parceiros tecnológicos que ajudam na jornada de Transformação, promovendo oportunidades para migração de aplicações e serviços de Cloud Computing, desenvolvimento de soluções digitais para os clientes, robotização de processos internos e cyber security.

Anaterra Oliveira, superintendente de Tecnologia do banco BV, diz que a forma como os parceiros cuidam da segurança dos seus ambientes e confidencialidade dos dados, também é crucial na hora de escolher seus parceiros.

Anaterra, do BV: Essas instituições não buscam apenas o melhor preço. Elas procuram principalmente capacidade de entrega.

E faz um alerta: “Os prestadores de serviços de TIC precisam ter expertise e qualidade. Para isso, a principal recomendação é que não abram mão da formação de bons profissionais. Empresas de tecnologia devem cada vez mais ajudar a sociedade na formação dessas disciplinas, pois somente os estudos acadêmicos não darão conta da demanda crescente no mercado”.

Duas demandas essenciais estão movimentando os trabalhos: soluções e consultoria, que seja capaz de entender as reais necessidades dos clientes e oferecer respostas customizadas. A outra são serviços no modelo de plataforma para que os diferentes públicos do banco ou da instituição financeira possam consumir produtos personalizados para seu perfil.

A oferta de soluções com consultoria especializada, segundo o executivo da Qintess, composta por profissionais que construam soluções sob medida, ajuda a acelerar as abordagens de mercado neste setor. “Essas instituições não buscam apenas o melhor preço. Elas procuram principalmente capacidade de entrega”, avisa.

Os movimentos entre Cloud e Edge também estão sendo procurados, pois bancos e fintechs querem cada vez mais a customização de serviços para seus clientes. É o que revela Eduardo Carvalho, presidente da Equinix.
“Essa customização depende de recursos escaláveis e uma imensa análise de dados. Por outro lado, as seguradoras estão incorporando Inteligência Artificial para diminuir riscos em seus contratos e as companhias de pagamentos eletrônicos estão construindo suas malhas de interconexão para diminuir fraudes e downtime.”

Carvalho, da Equinix: Cloud e Edge estão sendo procurados, pois bancos e fintechs querem a customização de serviços aos clientes.

Outra dica do executivo são soluções que proporcionem acesso e poder de troca de dados para resolver desafios de desempenho, escala e flexibilidade, e vantagem competitiva por meio da distribuição de recursos digitais. “Tudo que permita acelerar o crescimento e ganhar agilidade para integrar aplicativos, SaaS, e serviços digitais baseados em API com segurança”, ressalta Carvalho.

A era de alocar profissionais nas instituições, no modelo tradicional, está cedendo lugar ao atendimento ágil e eficiente com times remotos. “As empresas podem trabalhar com estruturas menores, não importando onde os times estejam. O futuro aponta para companhias ágeis com atuação remota. O oferecimento de serviços nesse modelo é uma proposta que está despertando bastante interesse nesse mercado”, diz Marcelo, da Solutis.

As demandas de customização, desenvolvimento de sistemas customizados e integração com os sistemas legados das instituições financeiras têm ocorrido muito mais para garantir a continuidade dos negócios. “As instituições financeiras têm buscado fortemente o conhecimento em plataformas de software que acelerem o lançamento de produtos, melhoria de processos e tragam uma melhor experiência para os clientes, como plataformas de core banking e omnichannel”, ressalta Glória.

Outras oportunidades, segundo a executiva, estão na oferta de consultoria e implementação de jornada para a nuvem, desenvolvimento de modelos para tomada de decisão, como Aprendizado de Máquina e plataformas de core banking. “Além de RPA, plataformas de automação de processos, ferramentas de UX e Open X. Sem esquecer dos microsserviços ligados à LGPD, da metodologia até ferramentas de implementação.”

O oferecimento de pacotes de soluções robustas e produtos digitais tem sido bem aceito. “Mas precisam estar apoiados em casos de sucesso, porque os bancos não aceitam testes, é necessário comprovar”, avisa Stefanini.

Para atender a esse ecossistema, os fornecedores precisam ser capazes de oferecer soluções que possibilitem às empresas do setor Financeiro conhecer melhor seus usuários finais e extrair melhores resultados. Por isso, as apoiadas em Analytics, Big Data e CX são muito atraentes para o setor.

O setor Financeiro entendeu que o futuro da sua TI está em todo o lugar, deixando de ser uma TI centralizada e passando para uma arquitetura distribuída, avalia Carvalho, da Equinix. E ainda que a infraestrutura do futuro é um ecossistema de parceiros para acelerar a entrega de novos serviços e lançarem produtos inovadores. “Entenderam que o mundo é híbrido. Cloud deixa de ser o fim da conversa (movimentos Cloud-first) e passa a ser o meio da conversa, convergindo para um ambiente cada vez mais híbrido e plural, interconectado de forma privada e fora da internet.”

Na trilha das fintechs

O foco da Ripio, especializada em serviços financeiros baseados em bitcoin da América Latina, com operação na Argentina (matriz), Brasil e México, é agregar soluções que melhorem a experiência do usuário e que aprimorem os processos internos. “Assim, sempre buscamos integração com provedores de serviços que possam agregar utilidade à plataforma e automação na interface com nossos clientes, principalmente com experiência em produtos financeiros”, diz Ricardo Da Ros, CEO da Ripio.

Da Ros, da Ripio: Damos maior peso para um prestador que seja flexível durante o projeto e que tenha experiência com startups.

O executivo acrescenta que buscam sempre parceiros que tenham flexibilidade e saibam se adaptar a um cenário que muda com muita rapidez. “Nosso mercado é muito novo e essa característica dos provedores que atualmente utilizamos tem sido fundamental para ajustarmos o curso das soluções, de acordo com as necessidades”, destaca.

Experiência com start-ups e uso de metodologias Ágeis são características que a Ripio busca nos parceiros de TIC. Além disso, também se interessam por provedores com alguma experiência internacional e habilidade de se comunicar em Espanhol ou Inglês.

“Damos maior peso para um prestador que seja flexível durante o projeto e que tenha experiência com startups. Porém, tudo depende do tipo de serviço a ser contratado”, avisa.

Ao trabalhar no cruzamento entre a área financeira tradicional e o novo mundo das criptomoedas, para alguns casos específicos, a Ripio busca provedores especializados em tecnologias relacionadas à Blockchain. Em outras ações, provedores especializados em serviços Financeiros ou bancários. No momento, estuda a possibilidade de implementação do PIX e certamente precisará de parceiros para esse projeto.

O setor Financeiro está sendo transformado rapidamente, principalmente por fintechs e empresas de criptomoedas. A principal dica é mergulhar nessas inovações para se preparar para o novo paradigma que está nascendo para serviços Financeiros.

Automação de processos
Na mesma trilha, a Stark Bank, uma fintech B2B, percebeu a oportunidade de ajudar empresas na Transformação Digital da área financeira ao simplificar e automatizar processos, eliminar gargalos operacionais e erros humanos, permitindo uma rápida expansão nos negócios.

Stark, da Stark Bank: As empresas que, lá atrás, investiram em digitalização terão, agora, um crescimento acelerado.

“Conseguimos isso por termos criado a primeira API de banking no Brasil. Como resultado, os times financeiros ganham mais controle, tranquilidade, segurança e produtividade, focando no core business”, diz Rafael Stark, CEO e fundador da empresa.

Stark conta que durante o período de pandemia triplicaram as solicitações de abertura de contas e de integração com a API da fintech. Outra observação foi o impacto na forma como as pessoas consomem. “Agora, empresas de todos os segmentos que não estiverem online terão suas receitas fortemente reduzidas. As que, lá atrás, investiram em digitalização vão aproveitar essa onda e ter um crescimento acelerado”, afirma.

A Stark Bank mantém parceria com dois dos maiores bancos do País. “Preferimos focar em operações bancárias via API para sermos os melhores do Brasil nisso, do que atacar várias áreas ao mesmo tempo e ser mediano em todas elas. Assim, quando clientes nos trazem necessidades fora no nosso core, trazemos o parceiro com maior expertise para atendê-los”, revela.

Segundo Stark, muitas seguradoras e financeiras procuram os serviços da fintech por conta dos benefícios que a API oferece, como a sinalização de pagamento de boletos, a possibilidade de realizar slip de pagamentos para direcionarem recursos para corretores, parceiros, entre outros, além da conciliação bancária automática.
De acordo com os especialistas, essas são outras grandes oportunidades nesse setor na seara das fintechs.

One Reply to O digital ganha mais espaço no setor Financeiro

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *